segunda-feira, 28 de junho de 2010

Nonsense baby, nonsense


















“Estou nu, jogado no sofa olhando sexyshop virtual e pensando.. black cock power ou invasor?
importados ou nacionais? pilha AA ou bateria? Fico pensando pq ainda não inventaram um vibrador
da apple, sabe esses nano, que você põe e vai trabalhar, as pessoas pensam q vc ta segurando
um ipod e você está ótima, com aquele sorriso. Agora fiquei bobo com consolo hermafrodita, possui uma buceta e um penis, assim, tipo, um kit-buba, fico pensando se não eh influencia da lady gaga.” (L.L Jr.)

Por essas e outras que ela lembra dele e pensa: é por isso que somos amigos. Sempre gostou de bobeira, de bobagem, de absurdos. Certas misturas são explosivas, baby. Eles não eram diferentes, eram sim um perigo soltos por ai. E mais que tudo, ela entendia o raciocínio da figura, pois ela pensava igual. Tanta besteira, tanto tempo perdido...precioso tempo que passam juntos, quando podem.

*Ilustração de Ryan Berkley

Um Bocadinho de Tristeza



















“À frente do rosto dele estava
um outro rosto desconhecido
e o outro rosto não se movia.”
(O rosto atrás do rosto- Caio Fernando Abreu)

As lágrimas tornaram-se raras, não conseguia mais entender sua dor pelo que acontecia, nem sua saudade que parecia agora um bloco de pedra. Mesmo com a mágoa imensa, dessas grandalhonas, mesmo com o psicológico totalmente abalado, tão abalado que transparecia físicamente ela tentava dar forças as si mesma e seguir em frente. O amor já lhe havia sim, cortado rudemente as delicadezasda vida, dessa vez não seria diferente, afinal de contas o amor é isso mesmo: alegria e dor. O amor não se ensina na escola e nem deveria, afinal de contas como podemos falar de coisas que não podemos explicar? À sua frente uma linha piscando, o apartamento vazio, escuro e Cartola ecoando seus amores e desamores pelos cômodos. “Era uma alma velha” lembrou-se da frase de uma série, e sentiu-se assim ali parada, sozinha. Talvez essa era sua sina, aguentar as agruras da vida com um sorriso no rosto, sabe-se lá. No momento era preciso sorrir, juntar os pedaços pelo chão e esperar como Pedro pedreiro.



*Ilustração de Ben Tour

segunda-feira, 21 de junho de 2010

Prostitutas Asiáticas



















Tava quente, quente de rachar e ela estava sentada numa dessas mesas de bar com propaganda de cerveja, com algumas sacolas a tira colo. De certo que estava tentando refrescar-se e descansar depois das compras. Calor realmente insuportável e São Paulo parecia ferver de gente, de sujeira, de podridão, cultura, pobreza, de tudo. Mas era o calor que fazia parecer tudo mais sujo e avermelhado que o normal, os carros pareciam pegar fogo. Enquanto ela bebia uma coca-cola gelada num copo vagabundo desses de boteco, seu telefone tocou, a ligação estava horrível, o barulho também:
-Oi, sou eu. É verdade que você está por aqui?
-Oi meu querido, estou sim. Ta tão difícil de te ouvir, fala mais alto.
-Vem aqui me visitar, estou por casa. Onde você está?
-Perto da praça tal, próximo a uma agência da Caixa.
-Então menina, meu prédio é aqui pertinho, perto das casas Bahia, sabe onde?
-Dou um jeito pergunto por ai, chego logo. Tô com saudade...
-Eu também, não vejo a hora...Vem logo

Ela levantou, ainda suada, pegou as sacolas, lutou para achar as notas em sua bolsa dentro da carteira, pagou pelo refrigerante e saiu. Andou meio sem rumo à princípio, mas foi perguntado para um, para outro e pronto, lá estava ela bem em frente a escadaria que levaria até a casa de seu amigo. Teve medo de seguir em frente, a escadaria estava tomada por prostitutas asiáticas maltrapilhas, maltratadas, umas fumavam crack em plena luz do dia, naquele sol, naquele verdadeiro inferno, e todas, todas elas tinhas feridas enormes nas pernas. Respirou fundo, resolveu seguir em frente, desviou de uma, depois de outra e mais outra e logo chegou ao topo. Sentiu-se num joguinho de videogame, algo como: oba, passei de fase. Na fachada do prédio algumas lojas esquisitas com produtos jogados aos montes em cestos, mendigos disputando lugar na calçada com suas cachaças, seus cobertores e seus cachorros sarnentos dos quais ela sentia mais pena do que dos próprios mendigos. Mas seguiu e o prédio era realmente bizarro, as escadas eram estreitas demais e em alguns andares travestis decadentes, que pareciam ter saido de um desenho das Jem e as Hologramas, fumavam seus cigarros vagabundos e sapateavam com seus saltos absurdamente altos. Subiu mais andares, e parecia que, quanto mais ela subia, mais estreitas as escadas ficavam e mais loucos cruzavam com ela. Nas portas dos apartamentos haviam pequenas janelinha com grades e nesse momento ela pensou: mas como eles conseguem viver nesse pardieiro?!? As pessoas por lá deviam dormir em pé e era isso.

*ilustração de Artaksinya

segunda-feira, 14 de junho de 2010

Corações distantes ou o Presente














"Mê notícia de você
Eu gosto um pouco de chorar
A gente quase não se vê
Me deu vontade de lembrar"
(Cadê Você- João Donato e Chico Buarque)


"quero te dizer que no dia 8 de março de 2010 tu, inesperadamente, me deste um presente... e que com ele fiz aquilo que fazem todas as crianças que - encontrando enfim aquilo porque nunca procuraram e cujo valor lhes é adivinhado pela alegria com que recebem a descoberta, algo, afinal, muito similar ao que fazem os cães quando, também eles, encontram um grande prêmio -- enfim, com o presente que me deste fiz o que fazem as crianças e os cães que, ao que parece, sabem mais da vida do que tenho sabido: guardei, intocado, feito um tesouro. Ainda não sabia a utilidade nem do presente nem do meu guardar, mas hoje descobri: eu o usaria, eu o usei, quando eu tivesse saudade de um tipo de presente que não tenho mais tido, quando tivesse saudade, enfim, de um passar das horas em um deleite magoado. Agora posso dizer: obrigada."(Juliana M.S.)


Li, e demorou a cair a ficha porque bateu aquela saudade estranha que bate sempre que eu penso nela, em como ela é doce, em como ela é e sempre será especial na minha vida. Recebo também como um presente e faltam palavras e faltam até lágrimas as vezes, porque elas costumam ficar contidas quando esse tipo de saudade deixa meu coração apertadinho. Não sei fazer uso das palavras tão bem como ela sempre o fez, mas acho que o que vale sempre é a intenção...e a intenção aqui é de dizer que te amo sempre pelo que foi, pelo que és e pelo modo como me sinto inexplicávelmente orgulhosa de poder te chamar de amiga para todo o sempre.


*ilustração de Leslie David